Foi tirando, uma a uma, as histórias da cartola. Narrativas pouco convencionais que o faziam rir. Disseste rir? Que disparate! Os cães não riem, quando muito latem.
Pois bem, faziam-no latir com prazer.
E Max, o coelho da Páscoa perguntava:
- Gostas? A acrescentar, tenho mais…
- Sim, sim, tira mais. Como é que as fazes aparecer?
- Eu não faço, elas já cá estão.
- Queres dizer que se compõem sozinhas?
-Isso mesmo. Porquê, tu não tens?
- Não… e baixou ligeiramente a cabeça em sinal de desapontamento.
- Talvez te faça falta uma cartola.
- Tens a certeza? Um cão de cartola seria ainda menos convencional que as tuas histórias.
- Hum…. Coçando a cabeça, o coelho da Páscoa, proferiu um possante não.
- Tu não precisas de cartola porque tens a minha. Podes tirar dela as histórias que quiseres, quando quiseres. Além disso preciso de ti. Preciso mesmo muito de ti!
- Para quê?
- Sem ti as histórias que fazem rir ou pensar, são apenas histórias, desprovidas de qualquer efeito.
- Tens razão, se bem que eu não gosto de todas. Algumas acho-as estranhas, mas outras divertem-me e fazem-me pensar.
- Vês… é o efeito a funcionar!
E fazendo fé que tais actividades entre um coelho e um cão são possíveis, nessa altura soltaram um abraço cúmplice.
Para sempre fã de António Lobo Antunes, fascina-me a forma como usa as palavras. Como elas a ele se rendem, transformam, como cria novas formas de escrita e por último, a ternura com que descreve o ser humano e o estado de alma de ser português. ... Estas palavras aqui são minhas.
sexta-feira, 10 de abril de 2009
quinta-feira, 9 de abril de 2009
Primavera em Nara

A Primavera chegara finalmente e ele faltava pela segunda vez à promessa acordada entre ambos quando se conheceram: juntos celebrariam muitas estações. Não por culpa dele, pois era ela quem o privava desse quotidiano. Hoje, no seu primeiro dia de folga em 2 semanas intensas de serviço no Hospital Central, ele decidira passear-se pelas ruas de Nara. Vagueava sem destino, embalado por uma aragem madrugadoramente fresca e um sol tão tímido quanto os habitantes da cidade. Seguia envolto na paisagem rumo a Nora Park onde se cruzou com inúmeros casais que passeavam absorvidos pelas mesmas promessas frágeis de que ele padecia agora. Ao longe avistavam-se os monges em atitude verdadeiramente contemplativa. Tinham rostos diferentes, inundados de paz, como se o significado atribuído a cada elemento daquele quadro natural, sempre houvera faltado ao comum dos mortais. Isto fê-lo sentir-se mal. Esta compreensão das dádivas infindas da vida faltara-lhe nos últimos meses, ou seria mesmo nos últimos anos? Sufocado em trabalho, lamuriava a sua perda e ignorava as ofertas diárias do raiar ao pôr-do-sol. Era como se cada árvore reflectida nas margens do rio, salpicado de flores de cerejeira lhe cobrasse essa falta. A incapacidade de ser um vaso comunicante com o mundo em todo o seu potencial. Como se a natureza e essa primavera que todos os homens anseiam, mesmo sem o proferir, em cogitações próprias dos cuidados diários e dos reptos do mundo, lhe dissessem: não viste tudo durante demasiado tempo.
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